Sofro de solidão crônica. Não se trata de encontrar pessoas na rua ou convocar amigos para fazer companhia. Quanto mais sinto amor pelas pessoas, mais irremediavelmente sozinha me sinto. Contraditoriamente, quando estou em meio a multidão de desconhecidos e estranhos, distraída, observo cada um com suas vidas, como em shows e festivais, sinto que a vida parece ter alguma orientação. Vejo a realidade individual e intransferível de cada um, enganados pela ideia de partilha social, e essa leitura do mundo e seu funcionamento ficcional me traz paz. Nesse momento, sinto a solidão crônica, mas ela não dói. Ela é mais uma entre tantas outras modalidades de solidão. Concluo, portanto, que minha solidão é incurável, porque sabe que não existe relação. Qualquer pessoa ou coisa que pretende caber ou completar não apazigua. como no alívio temporário de encontrar um objeto perdido. Não, pelo contrário, dói mais saber que trata-se de uma ilusão, fissura que alarga mais ainda o buraco fundamental de onde vim, ferida aberta que não cessa de sangrar. Minha solidão é crônica, incurável e é, sobretudo, o centro da minha experiência humana, graças a-deus! Minha decisão de existência, o modo que habito o mundo, em despedida constante.
A realidade é sempre mais ou menos do que nós queremos. A solidão se apazigua quando consigo suspendê-las nas araras, como indicou Fernando Pessoa, e sigo escrevendo o destino de quem sabe que o amor é um gesto, como regar as plantas, apenas, não é capturável em uma materialidade. Quando posso experimentar o sabor de ser sombra de uma árvore alheia, ao aliviar os encalorados passantes num dia de muito calor e sol. Gosto de ver o chão ocupado pela queda das minhas folhas secas, no outono, e do show de cores das flores caídas, na primavera. Gosto de quando brincam comigo e sobem nos meus galhos, pendurando seus balanços e vivendo suas alegrias no meu entorno. Mas serei pra sempre essa que só tinha qualidades. Serei sempre a da mansarda, ainda que não more nela. Serei sempre a que ficou de frente ao muro, ajudando muitos a saltarem para o outro lado, mas terminou esperando a mão que a puxasse, por último, e quando ela veio, o corpo não teve coragem de saltar. Não saberia viver de outra forma.
Fico e, sozinha, ecoo uma cantiga que ressoa através do vento quando atravessa minhas folhagens. Alguns passarinhos pousam e fazem coro com seus piados. Ficamos assim, ocupando o mesmo território por algum tempo, até que eles levantam voo e seguem seus caminhos para outras árvores. A solidão é crônica, mas toma forma através da bela figura de uma grande e antiga árvore, tão cheia de raízes que elas não se aguentam embaixo da terra e forçam seu aparecimento acima da superfície da terra. Respiram, pela primeira vez depois de décadas sufocadas pela terra, agora finalmente a céu aberto. H(a) céu aberto, singularidade qualquer.
Para citar o texto: ACCIOLY, A. (2024) Árvore da vida. Em: www.alineaccioly.com.br
