De manhã, quando acordo, abro todas as janelas da casa. Deixo a luz entrar. Meus olhos doem diante da claridade, levam um tempo para se acostumar e ajustar a pupila. Nem todo sol pode entrar, ao risco de queimar as córneas e cegar a visão. Enquanto os olhos se ajustam a iluminação de mais uma manhã, meu corpo segue a mesma orientação se ajustando ao quanto da civilização minha pele vai conseguir absorver no dia que começa. Tem sido assim neste ano. Deixo de me interessar por esse fenômeno, não me interrogo mais sobre o tempo de duração desse conflito. Entendi que é também isso que define grande parte da minha existência. Essa inquietude, esse desassossego não terminará, só quando minha vida terminar.
À noite, tive sonhos confusos. Queria limpar a casa, mas só sujava. Ao tentar recolher a areia dos gatos, o saco estoura na sala em cima do tapete. Recebo uma visita nesse exato momento, porque me equivoquei com o calendário e achei que seria no dia seguinte. À visita, meu pai, peço ajuda para levantar o tapete pesado dentro de um saco de lixo e despejar ali a areia dos gatos. Ele odeia o cheiro dos gatos, mas não hesita. Entra no saco de lixo junto com o tapete e a areia toda cai no lugar certo. Peço desculpas pela casa bagunçada e ele finge não ligar, pois precisamos sair para resolver coisas na rua. Ao sair, me lembro de trocar a roupa do Vinicius, meu filho. No sonho, ele ainda é um bebe fofinho, e como se soubesse que estava sonhando, mato a saudade dele com cheirinhos e toda delicadeza de mãe com um bebê. Saímos. No carro, meu pai demora demais para chegar no local. Ele sabe dirigir, mas não sabe se guiar pelos caminhos de Uberlândia. Entra em ruas erradas, na contramão, quase batemos de frente com outro carro numa subida. Me sinto nervosa e agitada, peço logo para sair. É uma universidade, talvez a UFU, e ali eu ainda sou jovem, na idade que fui mãe de Vinícius, e, como se sabendo que é um sonho, não tenho saudades, quero ir logo embora. Acordo. Abro as janelas da casa e deixo a luz entrar. Tento calcular, com meu corpo, o quanto da civilização vai atravessar minha pele naquele dia. Hoje. Faço um café da manhã, sento no computador e começo a escrever esse texto. Escrever não é um cálculo, é a própria orientação inventada. Então, escrevo minha bússola do dia. Quanto do mundo consigo absorver no dia de hoje? Pouco, muito pouco. Tem sido assim nos últimos meses. Tem sido assim especialmente desde fevereiro, quando fui impedida de ter um visto para visitar meu filho. Como pode o mundo ser esse lugar em que uma mãe e um filho não podem se encontrar por causa de uma disputa político-econômica? Sintoma universal da doença do nosso tempo. É, muito pouco do mundo pode entrar. E em muito pouco lugar do mundo eu posso entrar. O mundo fica muito pequeno sem o direito de visitar um filho.
Tenho sonhado com essas despedidas. Tenho me despedido da mãe que fui pra esse filho. Deu certo, seja lá o que isso signifique! Tenho tentado organizar meus restos, a minha hora do lixo clariciana. Quem é essa mulher que sou hoje, depois de ter caído como mãe de um filho, orientação de quase toda minha vida até esse momento? Por onde caminha esta mulher que já não pode mais contar com as referências antigas para retornar ao mundo? Como é a vida que estou, pela primeira vez, verdadeiramente escolhendo viver? É sobre decidir morrer de escrever. Morrer de uma boa maneira, guiada pela ética do meu desejo mutante. Morrer de viver de escrever. Depois de experimentar a dor e a delícia de fabricar seres humanos e reinventar o amor, o que seria mais importante do que escrever? Amar o escrito. Amar na escrita. Amar porque o amor se escreve aos pedaços, nos textos por vir.
No mês de maio, Patrick escreveu um texto sobre os jardins do feminino e avisou, logo de início, que pra entrar nesse jardim de suas palavras, era preciso ficar pequenininho, do tamanho de uma letra. Meu mundo se apequenou desde a partida do Vini, ficou menorzinho depois da negativa do visto dos Estados Unidos, e pra entrar no meu mundo agora é preciso ficar pequenininho também, do tamanho de um grão. Sútil. E quando vou atravessar o mundo, não tenho mais vontade de voltar a ser grandona, tenho vontade de continuar pequenina, sutil, quase opaca. Passar despercebida, como um ponto cegado pelo sol, um instante. Tem beleza nisso. Tem calma nisso, tem silêncio e alegria diante do espetáculo barulhento do mundo. Mas não quer dizer que possa correr o risco de ser esmagada pela grandeza dos universos particulares das pessoas que me atravessam. Deixo o sol entrar. Consinto com meu tamanho diante dele. E tudo vai ficando bem. Do meu tamanho, que ainda não sei bem qual é. Escrito por vir. De mulher desgarrada.
ACCIOLY, A. (2026) Deixa o sol entrar. Em: http://www.alineaccioly.com.br
